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Vencedores do Concurso Escrita Criativa

A partir da citação do escritor português Vergílio Ferreira, uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. (in “A Voz do Mar”, Espaço do Invisível 5, Lisboa, Bertrand, 1999, pp. 83-84) elabore, individualmente ou em grupo (até aos 10 anos), um texto no qual expressará o que vê, sente e ouve a partir da língua portuguesa.

​​​​​​​Este foi o enunciado do CONCURSO DE ESCRITA CRIATIVA com o qual se confrontaram mais de 50 alunos dos cursos EPE de toda a Suíça. O desafio foi exemplarmente superado e a decisão do júri dificultada pelos jovens talentos dos cursos de Português.

Coube ao júri, presidido pela Doutora Nazaré Torrão, responsável pela Unidade de Português na Universidade de Genebra e ainda composto pela professora Onélia Jorge, professora do EPE Suíça e pela escritora e jornalista Maria Inês Almeida, a dura tarefa de seriar os textos mais criativos, melhor estruturados e sobretudo detentores de uma sensibilidade pessoal e artísticas originais.

Apresentamos aqui os vencedores de cada grupo e damos, desde já, os parabéns aos professores que acompanham estes alunos ao longo do ano, a saber, os professores Amélia Pessoa, António Carvalho, Paula Rodrigues e Raquel Rocha. Um agradecimento também muito especial aos restantes participantes e seus professores

Grupo I

1° - Lara Soares

2° - Lara Martins

3° - David di Domenico

Grupo II

1° - Rafael Rodrigues

2° - Gabriela Meyer

3° - Sara Matos

Grupo III

1° - Bárbara Santos

2° - Lara Pereira

3° - Eduardo Santos

Textos vencedores:

Grupo I

Uma língua não é só fala, palavras, escritas. As línguas também são outra coisa.
As línguas também são recordações: recordações como familiares, artistas, momentos e beleza. Para mim a palavra mais significativa para Portugal é “A Praia”.
Quando falo português sinto a praia, a areia, o vento, o mar. quando olho para o mar, para a praia sinto aquela coisa que me atrai, querer saber o que tem depois lá, lá atrás, lá ao fundo.
E aquelas ilhas. Elas também no meio do mar. os pescadores, os navegadores do passado. Tudo em Portugal, desde sempre, se passou no mar.
Quando vou a Portugal também me lembro dos meus familiares. Os que já morreram e os que ainda estão comigo. Também me lembro da minha avó, das comidas que ela faz. O bacalhau para o Natal, o coelho que eu adoro, as castanhas assadas. Tudo isso é muito importante.
E também é graças a essa língua, o português, que eu sei tudo isso.

Lara Lavrador Soares

GRUPO II

 A MINHA LÍNGUA EM MIM

A língua portuguesa, em mim, nasceu quando eu nasci. Como nasceu o alemão.
Mas não nasceu em metade de mim, nasceu em mim todo inteiro. E é um mundo, um universo.
Da língua portuguesa eu vejo barcos e vejo mar, vejo navegadores em descobertas, vejo-os a viajar para outros paises e até continentes. Oiço as histórias que a minha mãe me contou e continua a contar.
Da língua portuguesa vejo os meus avós, os passeios que faço com eles e sinto o calor das conversas à porta das casas, depois do almoço, no verão.
E, na aldeia dos meus avós, a língua é o segredo de comemorarmos festas todos juntos. É em português que as pessoas confiam umas nas outras, falam e conversam, fazem coisas juntas e partilham juntas muito da vida.
A língua portuguesa também cultiva os seus legumes, as batatas e as cenouras. Planta macieiras e pereiras e espera pelo outono para colher os frutos. Cria galinhas e come ovos frescos e conta com a ajuda dos vizinhos. Porque a ajuda também é um segredo que funciona, como a confiança.
A língua portuguesa sabe a jantares muito longos e nunca aborrecidos, muito conversados e com muito riso. E é por isso que eu não estou nada espantado por os portugueses tratarem tão bem da sua cultura sem nunca se aborrecerem. Porque a língua portuguesa pode tornar-nos tristes, pode tornar-nos felizes mas nunca nos aborrece.
A língua portuguesa aparece logo de manhã e vai ao longo do dia, até à noite e é cantada de muitas maneiras e contada de muitas mais.
A língua portuguesa é também, todos os dias, o meu abraço de boa noite antes de dormir.

Rafael Häfliger Rodrigues

GRUPO III

 “VER, OUVIR, SENTIR EM PORTUGUÊS”

Ser português é muito mais do que saber falar português, ter nascido em Portugal ou viver lá. Ser português é carregar consigo o peso da história e cultura portuguesas que os nossos antepassados ergueram e guardaram durante estes nove séculos do país lusitano. Ser português é um sentimento e falá-lo é uma maneira de expressar as nossas emoções.
Falar português é relembrar a trajetória de todo o povo português também como a de todos os outros que falam português e descobrir como a língua de um país tão pequeno conseguiu espalhar-se pelos quatro cantos do mundo, tendo assim conquistado quase todos os continentes. É recordar-se de onde somos, de onde vêm as nossas origens, honrar as nossas raízes e lembrar-se do seu papel no mundo. É poder viajar sem sair de sua casa.
Falar português é ver o mundo através de anos de aventuras. É poder ver tudo com olhos de ver, com olhos de quem já passou por muito ao longo de novecentos anos e, com um brilho especial neles, saber que ainda vamos passar por muito mais, juntos.
Falar português é ouvir o som das ondas de um mar tão importante para todos nós. É ouvir poemas de Camões declamados por mais de 250 milhões de pessoas, ouvir cada fado cantado nos becos e nas ruas de Lisboa e de Coimbra.
Falar português é compartilhar o mesmo sentimento de muitos outros e ao mesmo tempo ser único. É saber o significado da saudade, melancolia e adeus e sentir uma liberdade enorme em poder se expressar numa língua que poucos têm o prazer de entender e falar.
Bárbara Santos